Rocio Zwirner, A mulher à beira do poço

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Sou uma espanhola nascida em Madri, a mais nova de quatro irmãos e quatro irmãs. Minha família era muito ativa na Igreja Católica Romana. Uma de minhas tias, chamada Maria Josefa Segovia, era co-fundadora de uma ordem religiosa secular, a Instituição Teresiana, que se dedica à educação.

Meus primeiros anos

Aos dois anos de idade, fui levada juntamente com duas de minhas irmãs ao internato de um convento. Durante a semana, residíamos em uma casa com membros da ordem religiosa que trabalhavam como professoras de escolas públicas. Nos fins-de- semana voltávamos para casa. Às vezes, mamãe nos visitava à tarde e ajudava a servir o jantar. Até aos sete anos, permaneci no internato recebendo minha educação elementar. Naquela casa, havia uma pequena capela, que tinha um altar e um tabernáculo (lugar para a eucaristia). Foi ali que, desde a mais tenra idade, comecei a ficar consciente de todas as práticas religiosas do catolicismo romano. Fui ensinada a rezar, usar água benta, seguir o ritual da missa e os demais sacramentos.

Aos cinco anos de idade, fiz minha primeira confissão a um padre, e aos seis anos de idade, a preparação para a primeira comunhão. Com essa mesma idade, comecei a ler, escrever e memorizar o catecismo católico, para obter o privilégio de participar da santa comunhão. Lembro claramente como me preparei com bastante expectativa para este momento; estava firmemente convencida de que Jesus estava presente na hóstia consagrada e entraria em meu coração. Agradeço ao Senhor por ter me dado uma consciência delicada e sensível em referência a tudo que se relaciona a Ele.

Desde a minha infância, Jesus era o objeto de meus sonhos, aspirações e desejos.

Ele era meu amigo íntimo. Fui ensinada a respeito de Deus, da Trindade e de Jesus Cristo, tanto pelas teresianas quanto por minha família. Conhecia a vida de muitos santos e mártires, sabia a história da igreja primitiva (de acordo com a Igreja Católica), tinha conhecimento sobre vidas exemplares de todas as épocas da igreja e estava ciente de muitas histórias de personagens bíblicas.

Tudo isso despertou em mim o desejo de imitar suas vidas. Eu sinceramente queria agradar a Deus e dedicar-Lhe minha vida. Trabalhava fervorosamente para cumprir todas as ordenanças da Igreja: missa diária, confissão, comunhão, jejum, esmolas, rezas pelos mortos no Purgatório, indulgências, etc. Recitávamos o rosário tanto em casa como na escola. Eu tinha minhas horas de oração individual e procurava ajudar regularmente na sacristia da capela da escola.

Depois dos sete anos de idade, passei por diferentes escolas particulares para meninas, em Madri, na cadeia de montanhas de Córdoba, no sul da Espanha, em Ávila, a cidade dos “Santos e Cavaleiros”, na província de Castilla, e em Burgos. Sempre vivendo longe da família, a cada mudança tornava-me mais apegada à minha amizade com o Senhor .

Um voto pessoal

Aos quatorze anos, senti o chamado para me dedicar ao Senhor, querendo ser totalmente dEle. Pedi permissão ao meu confessor para fazer um voto particular de castidade. 21 de Janeiro de 1961 foi um dos dias mais felizes de minha vida, quando me comprometi com o Senhor por meio desse voto. Também coloquei um anel especial de noivado. Depois disso, meu propósito se tomou definido; decidi ser missionária. Continuei meus estudos para concluir a educação secundária, a fim de estudar enfermagem e ser mais útil no campo missionário.

Quando terminei o curso secundário, aos dezessete anos, e revelei à minha família o desejo pessoal de ser missionária e estudar enfermagem, não obtive deles qualquer apoio. Disseram que não poderiam ajudar-me financeiramente e esperavam que eu encontrasse um emprego, o quanto antes melhor.

Liberdade total

Tive uma adolescência difícil, após ter concluído o curso secundário. Apesar de estar vivendo com minha família, passei a desfrutar de liberdades que jamais havia experimentado. Comecei a enfrentar problemas que eu não tinha forças ou maturidade espiritual para encarar. Embora tenha procurado achar refúgio e força nos sacramentos, como havia sido ensinada, eu não tinha poder; era vulnerável e estava perdida na “nova” vida que o mundo oferecia. Sentia-me oprimida por meus pecados frequentes e pela completa falta de controle. Comecei a trabalhar e ganhar dinheiro; porém, as necessidades financeiras de minha família não permitiam que eu economizasse o suficiente para a escola de enfermagem.

Fumei, bebi e não desprezei a oportunidade de curtir a vida de uma maneira ou de outra. Às vezes, estava em angústia completa, porque me sentia tão separada do Senhor. Meu confessor, um padre agostiniano, tinha reservas quanto a me absolver dos meus pecados, visto que estava cometendo sempre os mesmos pecados. Minha situação se tornou tão desesperadora, que em mais de uma ocasião cheguei ao ponto de querer suicidar-me.

Um novo confessor

Certo dia, ao sair da igreja, em meu desespero, entrei correndo e chorando no Monastério Dominicano. Um padre passou pelo canto onde havia me escondido e perguntou por que eu estava chorando. Comecei a falar com ele, que pacientemente ouviu as minhas queixas. Ele me aconselhou e me ofereceu absolvição, pela qual estivera ansiosa, mas que me havia sido negada. (De acordo com a Igreja Católica, sem a bênção do padre Deus não me perdoaria.) Depois daquele dia, o padre dominicano Juan Luis Tena tornou-se meu confessor e ajudador .

Entrando para o convento

Quando estava quase completando dezoito anos (idade mínima para ingressar no noviciado das Missionárias Combonianas), mudei de idéia repentinamente e decidi me tomar uma freira enclausurada. Fui encaminhada ao Convento das Clarissas, o “Monastério do Sagrado Coração”, em Cantalapiedra, Salamanca, porque a mãe do meu confessor e cinco de suas irmãs moravam naquele mesmo lugar . Em pouco tempo, comecei a corresponder-me com as freiras, em especial com a irmã Maria das Graças. Decidimos que em poucos meses eu iria para o convento.
Quando comuniquei aos meus pais esta decisão, eles não quiseram permitir. Isso causou um grande problema em minha família, mas finalmente, depois de muitas lutas, eles permitiram. Parti para o convento no dia 4 de Fevereiro de 1965.

Não posso descrever a alegria interior e as expectativas com as quais ingressei nessa nova vida. Por outro lado, havia tristeza por causa da oposição de meus pais, especialmente de minha mãe, quando tentara me separar daquilo que eu sempre desejara, ou seja, pertencer total e completamente ao Senhor .

Vida religiosa

Adaptei-me à vida religiosa de “pobreza, castidade, obediência e enclausuramento”. O frio foi o primeiro e mais inconveniente problema que encontrei. Nesses conventos, a austeridade e a pobreza de vida eram traduzidas em uma completa negação de qualquer conveniência pessoal ou material. A pessoa tem de se submeter ao Senhor por meio de regras, trabalho, rezas, disciplina, sacrifícios e sofrimento físico impostos sobre si mesma. Não havia contato com o mundo, nada que agradasse ou satisfizesse os sentidos. Frio ou calor, fome ou sede, humilhação, desconforto, privação, etc., em qualquer destas circunstâncias a pessoa deve fingir que está em um quarto repleto de rosas. Não sei o que pensavam as minhas irmãs do convento, mas para mim todas essas circunstâncias não significavam nada em comparação com o desejo de agradar ao Senhor e assegurar minha salvação e a de outros. Tínhamos de ser “co-redentoras com Jesus e Maria”. Éramos o dínamo, o coração oculto da Santa Igreja Católica, para interceder pelos vivos e pelos mortos. Uma vida de oração e sofrimento voluntário era a chave do sucesso na vida cristã.

Por fim, eu tinha certeza (pelo menos assim pensava) que havia “chegado” em um porto seguro, onde poderia praticar todos os sacramentos. Estava vivendo uma vida santa, separada do mal e do mundanismo. Rezava, trabalhava, praticava atos especiais de sofrimento, que impunha sobre mim mesma, e sacrifícios constantes; também mantinha as regras do convento, da vida religiosa e da Igreja. O que mais o Senhor poderia pedir que não tivéssemos feito ainda? Eu procurava ser obediente, trabalhava com ardor, era honesta e dedicava-me completamente à glória de Deus.

Em agosto de 1965, tomei o hábito das Clarissas. Um ano depois fiz meus primeiros votos temporários e três anos mais tarde, os solenes votos finais. Agora oficial e permanentemente estava consagrada ao Senhor — “casada” com o Senhor, conforme havia sido ensinada.

O presente da madrinha

Minha família foi convidada para a cerimônia em que eu receberia o hábito. Fui admitida na Ordem Franciscana das Clarissas no dia 8 de agosto de 1965. Meu nome de família foi mudado para “Irmã Maria do Espírito Santo”. Além de meus pais, foram convidados meus irmãos, irmãs e minha madrinha de batismo, Maria Antônia Ruiz. Ela me deu uma Bíblia e, com a permissão da Madre Superiora, comecei a lê-la. No começo, li-a completamente, mas às vezes encontrava muitas coisas que eu não entendia. Apreciava ler o Novo Testamento, mais do que o Antigo Testamento. Visto que desejava tanto conhecer o Senhor e amá-Lo, lia constantemente esse livro precioso e consultava algumas partes do Divino Ofício, escritas em latim. Anotava as referências do Livro dos Salmos, que recitávamos todos os dias e, em meu tempo livre, lia em espanhol. Como havia estudado latim na escola secundária, era capaz de ler e traduzir .

Sede de Deus

O Evangelho de João foi a parte das Escrituras que li com mais assiduidade, durante os nove anos que passei no convento. Não entendia o significado da salvação, porém aprendi mais sobre Aquele que falava: “Eu sou o bom pastor”; “Eu sou a porta”; “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida”; “Se alguém tem sede vinde a mim e beba”. Em particular, me deleitava e meditava no encontro que Jesus teve com a mulher samaritana, à beira do poço (João 4.1-26).

No centro do convento havia um poço rodeado por flores e arbustos. Muitas vezes, assentava-me ali e orava, desejando ardentemente a presença de Jesus, com todo meu coração, meu ser e minha vontade: “Senhor, dá-me de beber; tenho sede de Ti. Por favor, dá-me da água viva!”

Com o passar dos anos, fiquei mais e mais insatisfeita comigo mesma. Queria ser melhor a cada dia, mas como isso poderia acontecer? Como poderia satisfazer meu Senhor cada vez mais em santidade? Essa era minha luta e ansiedade, e cresceu ao ponto de me tornar desequilibrada física e emocionalmente.

O Evangelho de João relata que, ao orar por seus discípulos, após a última ceia, Jesus disse: “Não peço que os tires do mundo, e sim que os guardes do mal” (João 17.15). No meu anseio por santidade, li nessa mesma oração: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (João 17.17).

No convento estávamos totalmente separadas do mundo, como se nos encontrássemos em outro planeta. Todavia, nessa mesma oração, Jesus afirmou: “Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo” (João 17.18). Queríamos convencer-nos de que, sendo freiras enclausuradas, éramos a “nata” da vida religiosa. No entanto, à medida que o tempo passava, deparei-me com mais e mais contradições nesse ponto de vista. Havia muitas regras e práticas semelhantes às dos fariseus, que tanto desprezaram o Senhor. Fazia-se distinções entre freiras e visitantes, entre famílias ricas e pobres. Muitas vezes ouvi a afirmação de que uma mentira “branca”, usada para salvar uma situação difícil ou defender alguma coisa ou alguém, equivale a utilizar bem a “mão esquerda”; portanto, não se trata de um pecado. Regras, tradições e rigidez de obediência

incapacitavam-nos de tomar decisões. As coisas eram sempre bem protegidas para manter as aparências e havia uma formalidade constituída de inúmeros regulamentos.

Luta interior

Uma grande luta iniciou-se em meu íntimo, uma luta entre o que minha mente estava aprendendo a respeito de Deus e da vida espiritual e a maneira como vivíamos no convento. Essa luta chegou ao ponto de causar-me enfermidade. Fui levada ao médico, visto que repentinamente perdi minha voz. A Madre Superiora pensou que eu estivesse com tuberculose na garganta, como aconteceu a outra freira naquela mesma época.

Outra freira, por causa da angústia que passava por seu coração, jogou-se no poço do convento. Seus gritos, não por socorro mas provenientes de seu inconsolável tormento mental, podiam ser ouvidos por todo o convento: “Estou condenada, estou condenada”. Ela não sabia nadar, mas permaneceu flutuando e conseguimos retirá-la com vida. O seu pânico, por causa de condenação eterna, levou-me a pensar. Durante a “operação resgate”, a Madre Superiora repetia: “Minha filha, pare de condenar a si mesma”; mas a freira continuava lamentando: “Estou condenada”. Até hoje recordo-me com pesar dessa experiência terrível, pois muitos ainda seguem esse mesmo caminho, crendo em coisas mortas e vazias.

Dos nove anos que passei no convento, os últimos três foram vividos com uma incessante luta íntima. Não podia entender como no início eu era tão feliz e agora não tinha nenhuma alegria. Pedi ajuda ao pai espiritual de minha tia, a freira teresiana. O padre Amalio Valcarcel naquela época era o secretário do Chefe Geral dos Padres Dominicanos, em Roma. Em sua providência, Deus permitiu que esse padre fizesse uma viagem à Espanha, e, aproveitando a oportunidade, visitou-me no convento. Após ouvir o que estava acontecendo comigo e que eu preferia morrer a renunciar minha vida monástica, ele me disse algo muito simples, que me ajudou a entender e tomar uma decisão final.

Com muita compaixão e paciência ele disse: “Minha filha, não te parece que chegaste a conhecer Deus, pelo menos um pouquinho, nesses anos de vida religiosa?” “Sim”, eu respondi. “Então não crês que Ele é um pai ou uma mãe para ti, mais do que os teus próprios pais, e que não quer torturar-te? E, se Deus deseja que estejas aqui, não te dará a alegria e a paz necessárias, para perseverares neste modo de vida?”

Em asas de águia

Admiti, com o coração partido, que não poderia mais continuar em paz. O padre Valcarcel assumiu o compromisso de convencer a Madre Superiora a deixar que eu fosse à casa de meus pais, por algum tempo, a fim de determinar qual era a vontade de Deus para minha vida. Pediram permissão ao arcebispo de Salamanca. Tive licença para sair e ficar com minha família, durante um determinado período de tempo, após o qual deveria resolver se retornaria ao convento ou solicitaria a secularização por meio da Cúria Pontifícia em Roma.

Quando meus familiares ouviram a notícia sobre essa decisão, apressaram-se para me buscar. Naquele dia, em março de 1974, pensei que iria morrer. Nunca, em toda minha vida, antes ou depois, sofri tamanha tristeza. Estava em agonia indescritível. Não me deixaram despedir das freiras que haviam sido minhas queridas “irmãs” durante esses anos. Com uma bênção fria e triste, a Madre Superiora, juntamente com duas irmãs da diretoria, acompanharam-me até à porta do convento. O som de cada volta das chaves nas fechaduras e nas portas eram como sopros em meu coração. Não acreditava no que estava

acontecendo, que meu Senhor querido estava me deixando ir. Acreditava que O estava abandonando. Ele não era todo-poderoso? Não poderia impedir minha partida? Não sabia quanto eu O amava e que esta separação me causava temor? Onde Ele estava nessa hora? Como um fogo consumidor em meu espírito, o coração gritou: “Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste?”

Para que eu deixasse o convento, minhas irmãs tiveram de segurar-me pelos braços, pois os pés não ofereciam sustentação. Era incapaz de falar, somente conseguia chorar. Sem forças, fui levada para Madri sob um céu escuro, que também chorava em chuva torrencial, apagando a silhueta do convento oculta no horizonte. Onde estava o meu Deus?

Cega em minha vida de vaidade e pecado, não percebia os amáveis e poderosos braços de Deus tirando-me dessas circunstâncias, para oferecer-me a salvação que eu tanto ansiava, se tão-somente pudesse encontrá-la! Conforme está escrito em Deuteronômio 32.10-12: “Achou-o numa terra deserta e num ermo solitário povoado de uivos; rodeou-o e cuidou dele, guardou-o como a menina dos olhos. Como a águia desperta a sua ninhada e voeja sobre os seus filhotes, estende as asas e, tomando-os, os leva sobre elas, assim, só o SENHOR o guiou, e não havia com ele deus estranho”.

A vida fora do convento

Minha adaptação à nova vida, no mundo exterior, foi lenta e difícil. Estava desligada de tudo e de todos. A agitação da vida diária era, entre outras coisas, uma fonte de estresse para mim. Estava com vinte e sete anos, mas era tão imatura quanto uma adolescente que encarava a vida pela primeira vez. Sem a proteção do hábito e o “tom” das regras e regulamentos, que ressoavam como os sinos do convento, era uma presa fácil para minha própria natureza pecaminosa, que durante vários anos havia sido isolada da realidade sob o manto das “boas obras” religiosas.

Em mim mesma, não tinha poder, nem discernimento, nem orientação. Acreditando que o Senhor me havia abandonado, rebelei-me contra qualquer forma de regras e regulamentos. Nem mesmo conseguia frequentar a igreja. Isso parecia vazio para mim, fazendo-me sentir inquieta no íntimo e levando-me a evitar mais e mais toda forma de prática religiosa. Não era capaz de ir à missa, receber a comunhão, praticar a confissão ou mesmo ler a Bíblia. Essas coisas não faziam sentido para mim e me perturbavam. Logo comecei a fumar, a beber e a vestir-me sem modéstia. Lutava contra minha consciência, querendo fazer, na maior parte do tempo, aquilo que eu sabia ser contrário à lei de Deus e à moral.

Ainda desejava estudar para ser enfermeira; desta vez, minha família ajudou-me. A escola de enfermagem que eu frequentaria era longe de Madri e de minha família; estava localizada em Barcelona, no nordeste da Espanha. Novamente, mudei de lugar e comecei a estudar. Apesar do ingresso nesta carreira me ter proporcionado muito mais satisfação, sabia que, em minha vida pessoal, estava perdendo o controle de mim mesma e caindo em profunda depressão.

O alto preço de um conselho ímpio

Fui aconselhada a consultar um psiquiatra que também era padre. Infelizmente a cura foi pior do que a doença. O conselho dado por aquela autoridade profissional e sacerdotal colocou-me na situação mais perigosa de minha vida. Quando lhe contei minha história pessoal e o que havia deixado, ele aconselhou que “viver para mim mesma” era a

“terapia necessária”. “Toda a sua vida foi muito reprimida; agora você precisa dar oportunidades a si mesma. Deixe que seus instintos e desejos lhe dêem o prazer de viver, algo que você nunca teve. Se quiser, minta, roube e expresse sua raiva, se for necessário; pratique fornicação, beba, fume (ele fumava entusiasticamente, enquanto me aconselhava). Divirta-se com homens; não se afunde em seus estudos nos fins-de-semana, não fique em casa, divirta-se, goze a vida, etc. Não se preocupe, não fique pensando sobre o que é ou não pecado. Se a consciência perturbá-la, jogue a culpa sobre mim, sobre os meus ombros”. “Mas padre”, eu argumentei, “isso é contrário à lei de Deus”. “Não se preocupe”, ele respondeu, “isso é para o seu bem; faz parte de sua terapia”.

Passei aqueles anos estudando enfermagem e “recuperando-me” a um preço bem alto. Ao mesmo tempo que estava lançando os alicerces de uma carreira, minha vida espiritual e pessoal estava se deteriorando cada vez mais. Minha consciência estava se tornando cauterizada.

Durante o verão, fiquei em Porto Rico, na casa de meu irmão; e o verão seguinte passei na Inglaterra. E não perdia nenhuma oportunidade para me divertir e “conhecer o mundo”. Essa foi uma época cheia de abandono pessoal e autodestruição.

Visita papal

Ao terminar meus estudos de enfermagem e receber o diploma, meus pais presentearam-me com uma viagem à Itália, para que eu fosse visitar o papa. Cheguei em Roma em Agosto de 1978. O padre dominicano que me ajudou a deixar o convento estava me esperando; meus pais o haviam avisado. Ele me acompanhou em um passeio pela “cidade santa” e deu-me um bilhete especial para comparecer em uma das audiências com o papa. Na verdade, não pretendia ir, mas como não queria ofender o padre, recusando o convite, eu fui. Todo o acontecimento pareceu um espetáculo ridículo. Abominei toda veneração e entusiasmo por um mero homem. Olhando para a multidão, não conseguia entender o que estava acontecendo com aquelas pessoas. Desejava sair correndo para o mais longe possível; tinha vergonha daquela massa histérica. Embora não tenha participado desses acontecimentos, eu considerava o luxo, a pompa, os artifícios e as palavras vazias como insultos contra Deus e repugnância para mim mesma. Queria ir para casa o mais depressa possível. Em Assis, fiz uma confissão geral, tentando me reconciliar com o Senhor. Fui à missa. Esse novo fervor durou apenas até meu retorno à Espanha, quando imediatamente voltei ao meu antigo modo de vida.

De Porto Rico à República Dominicana

Nessa época, estando com muitos problemas e procurando em vão um emprego fixo como enfermeira, decidi partir para outro país, a fim de seguir minha carreira de enfermagem. Fui para Porto Rico, onde meu irmão morava há alguns anos. Ele ofereceu- me sua hospitalidade e ajuda, até que pudesse andar com minhas próprias pernas. Novamente, com o coração partido, deixei minha família, meus amigos e meu país.

Passei meses difíceis nessa linda ilha do Caribe, procurando achar um emprego e estabelecer residência americana permanente. Por causa de procedimentos burocráticos, ambos os objetivos levaram mais tempo do que as autoridades de imigração haviam indicado. Tornou-se imperativo que eu deixasse o solo americano, pelo menos por algum tempo. Desesperada, pensei em voltar para qualquer parte da Europa e unir-me a um grupo de rebeldes, a fim de perder-me completamente ou talvez perecer em algum lugar. Por que continuar lutando? Estava no meu limite.

Meu irmão, sabendo algo a respeito das possibilidades que eu estava considerando, sugeriu que fosse procurar emprego na República Dominicana. Ele tinha certeza que ali eu acharia emprego, porque naquele país havia escassez de enfermeiras diplomadas. Nesse meio tempo, ele continuaria se empenhando para conseguir um visto americano para mim, a fim de que pudesse retornar a Porto Rico .

Sem muito entusiasmo, aceitei essa proposta e parti para a República Dominicana, em Setembro de 1981. Em São Domingos fiz novos amigos rapidamente e consegui uma posição razoavelmente boa em uma das melhores clínicas da cidade. Comecei a sentir-me animada e esperançosa. Naquela clínica encontrei crentes evangélicos pela primeira vez. Um casal convidou-me para um estudo bíblico e culto em sua igreja. Assistir um culto protestante era uma experiência nova e fascinante; eu não queria perdê-la.

Convicção de pecado

No sábado a noite, véspera do domingo em que eu iria à igreja com esse casal, saí para jantar e dançar com um de meus amigos, um médico divorciado que tinha planos para uma noite divertida. Minha consciência dizia que não deveria sair com este homem. No entanto, sendo rebelde e fraca como sempre, saí para divertir-me o quanto pudesse. De madrugada, ao atravessar a rua, ouvi o canto estridente de um galo. De repente, senti-me como se uma espada tivesse atravessado minha alma. Imediatamente lembrei-me do apóstolo Pedro negando a Jesus. Não podia mais aguentar. Deixei o “amigo” parado ali mesmo e, chorando, corri pela rua, não sabendo onde estava, somente olhando para os céus e clamando por ajuda e perdão. Do fundo de meu ser, clamei a Deus: “Salve-me, ajude-me, não posso viver sozinha. Sem Ti, estou perdida; por favor , perdoe-me e salve- me!” Sem que eu o soubesse, o Espírito Santo começou sua obra em mim, por meio da convicção de pecado.

Precisei pedir orientação para achar meu apartamento. De madrugada, eu estava literalmente perdida em uma cidade grande. Porém agora o grande Consolador estava comigo. Ao amanhecer, preparei-me para ir ao culto dominical, atendendo ao convite daquele casal. Era uma igreja batista fundamentalista recém-organizada, cujo pastor era um missionário americano chamado Paul Joles. O culto realizou-se na sala da casa dele. Quando cheguei, no meio da Escola Dominical, os crentes falavam sobre o Espírito Santo. Aquela manhã era uma continuação do que havia acontecido de madrugada, quando minha conversão realmente havia sido iniciada. Agora comecei a “ver” e a “entender” o que antes estivera “oculto” aos meus olhos. Cristo, por meio da sua palavra, fez-me entender o
plano de salvação — “Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, … foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras” (I Coríntios 15.3-4). Depois que a Palavra de Deus me convenceu acerca do pecado, afirmando que todos somos pecadores (Romanos 3.23), que o pecado nos separa de Deus (Isaías 59.2; Romanos 3.26) e que esta separação leva à morte e ao julgamento (Hebreus 9.27; 2 Tessalonissenses 1.8-9), o Senhor não me deixou nesse ponto.

Existe uma solução: Jesus Cristo. Ele pagou a penalidade de nossos pecados; é o caminho para Deus (I Timóteo 2.5-6, I Pedro 3.18). A salvação é o precioso dom de sua graça (Efésios 2.8-9; João 3.16). Quão magnífica é a graça de Deus, misericordiosamente oferecida a todos os que crêem nEle! Graça admirável, que me tirou das trevas para sua maravilhosa luz; do pecado, para o perdão; da morte, para a vida! Graça que encontrou uma ovelha perdida e trouxe de volta ao lar a filha pródiga, para ser abraçada pelo Pai, que me aceitou com amor incondicional.

Como expressar o que aconteceu naquela manhã! A explosão de tristeza foi transformada em alegria; um rio de lágrimas fluiu “O véu caiu de meus olhos” de meu espírito quebrantado, prostrei-me aos pés de Jesus. Como a mulher samaritana, fui purificada e recebi a água viva. Sabia que esse era o novo nascimento que me deu vida e liberdade em Cristo, uma liberdade que eu jamais havia conhecido. Entendi as palavras de Jesus proferidas na cruz: “Está consumado” (João 19.30). Jesus é o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo (João 1.29). Ao mesmo tempo, Ele é nosso Sumo Sacerdote, o Intercessor e a Propiciação (ou seja, o pagamento completamente satisfatório) pelo pecado.

O véu caiu de meus olhos; percebi que fora aceita em Cristo. Tantas coisas aconteceram. Esse era o Cristo que muito desejara conhecer, amar e servir. Ele é o Deus apresentado nas Escrituras, que salva por meio de seu sangue redentor, derramado de uma vez por todas. Esse é Jesus Cristo, que não precisa do auxílio de sacramentos, obras pessoais, padres e santos, para intercederem em meu favor e me redimirem. Ele outorga o dom da salvação, por meio de sua graça suficiente e santa, se nEle crermos.

Comecei a dar os primeiros passos em minha nova vida em Cristo: o estudo da Bíblia e o batismo de fé, meu primeiro testemunho público. Uma carta muito longa foi escrita ao padre que me ajudou a deixar o convento, na Espanha. Contei-lhe a alegria de minha fé e de minha nova vida, guiada pelo Senhor. Estas eram evidências claras de que eu pertencia a Cristo e não a um sistema religioso.

Água viva

Ao ser chamado de volta aos Estados Unidos, o pastor-missionário que pregara a Palavra na ocasião em que, pela graça de Deus, nasci de novo, deu-me um conselho e a melhor de todas as advertências que eu já havia recebido. Ele disse: “Leia sua Bíblia todos os dias, quer sinta vontade, quer não, porque através da Palavra você achará tudo que necessita, para continuar perseverando e crescendo no Senhor, e tudo mais que venha a precisar”. Sem muito esforço, segui fielmente este conselho, pois tinha uma insaciável sede de conhecer mais e mais as Escrituras. Desse modo, acheguei-me cada vez mais a Deus e descobri a vontade dEle para minha vida. Pela graça do Senhor, hoje posso dizer que li a Bíblia toda dezesseis vezes, ou seja, uma vez para cada ano, desde a minha conversão. Que bênção tremenda!

Meu desejo pela Palavra de Deus motivou-me o suficiente para que entrasse no Instituto Bíblico Quisqueyan, em São Domingos. O fundador e diretor daquele instituto era Larry Dobson, outro missionário americano. Ali tive a oportunidade de realizar um aprendizado sistemático da Palavra de Deus, desfrutando o privilégio de estudar em uma atmosfera saudável e alegre, recebendo um ensino que estava de acordo com os princípios e as doutrinas bíblicas.

O estudo profundo das Escrituras trouxe grande paz e estabilidade emocional à minha vida, embora tivesse de estudar e trabalhar muito. Este esforço era uma alegria e não um fardo. Conhecer e viver pela Palavra de Deus é uma fonte inesgotável de bênçãos. Em minha própria vida, estava começando a entender as palavras do apóstolo Paulo: “Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gálatas 2.20).

Em minha vida passada, como freira católica, queria fazer tudo: lutava para ser melhor, sacrificava-me ao extremo, para ganhar e ajudar Cristo a salvar almas perdidas, fazendo tudo muito bem, a fim de ganhar os céus. O que está acontecendo agora? Cristo está fazendo tudo por mim: Ele me salvou e está produzindo boas obras em minha vida,

para que eu possa agradá-Lo e não para comprar sua aprovação. “Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Efésios 2.10). Que maravilhosa descoberta! Obrigada, Senhor!

Servindo ao Senhor

Enquanto estudava as Escrituras, em meu segundo ano no instituto em São Domingos, senti o chamado do Senhor para dedicar-me completamente ao seu serviço. Com meu diploma de “Obreira Cristã”, busquei a vontade do Senhor quanto à maneira de servi-Lo. Visitei meus pais na Espanha, ficando disponível para a obra do Senhor em meu país. Quando essa tentativa pareceu infrutífera, voltei a São Domingos e decidi começar algo que desejara por muito tempo e que jamais fora possível realizar. Decidi abrir as portas de meu coração e de minha casa às crianças abandonadas e órfãs, não importando onde elas estivessem e as circunstâncias que as trariam a mim. Com a aprovação da igreja local e do pastor, comecei esse ministério, e logo tivemos uma equipe formada por vários casais da igreja.

Pela providência de Deus, as crianças começaram a chegar à minha casa. É surpreendente, mas várias delas estavam apenas com alguns meses de vida; tínhamos onze crianças até aos nove anos de idade. Juntamente com as crianças, surgiram pressões e dificuldades financeiras. Ainda maiores eram os problemas espirituais e as batalhas que eu tinha de enfrentar devido ao enfado de estar sozinha. Os ataques do inimigo se avultaram de maneira opressiva. Na mesma proporção, a generosidade e a providência do Senhor nos auxiliaram a resolver nossas dificuldades e dar continuidade ao trabalho. Realmente eu era capaz de experimentar e me regozijar com as palavras do apóstolo Paulo: “Sei em quem tenho crido” (2 Timóteo 1.12).

Ele é fiel

Nesse testemunho há outro capítulo importante que gostaria de compartilhar, pois talvez ajude alguma pessoa a entender como o Senhor trabalha para o nosso bem, em todos os detalhes da vida. Às vezes, quando uma pessoa religiosa do catolicismo abandona a vida “consagrada”, volta ao “mundo” e se casa, no ambiente religioso isso é considerado quase como uma ofensa, como se o abandono da vida religiosa acontecesse simplesmente por motivos sexuais. Que tristeza!

Meu desejo era ser totalmente consagrada ao Senhor. O ensino católico fala sobre as maravilhas e os privilégios do celibato, alegando que o permanecer solteiro por amor a Deus excede em honra e virtude o casar-se. Após minha conversão a Cristo, aprendi quão errônea e falsa é a doutrina do celibato.

Desde o seu início, a Bíblia ensina que, após criar todas as coisas, Deus viu “tudo quanto fizera, e eis que era muito bom”, incluindo o homem. Mas, quando viu que este se encontrava sozinho, Ele disse: “Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea” (Gênesis 2.18). Em todo o Antigo Testamento, o casamento é a condição normal do homem e da mulher. No Novo Testamento, a primeira carta de Paulo a Timóteo fala sobre os sinais da apostasia, indicando que um destes seria a proibição do casamento (1 Timóteo 4.1-5). Ao nomear as qualificações de um bispo, Paulo assume que o candidato deve ser casado (1 Timóteo 3.2).

Anos antes de ir ao convento, cheguei ao ponto de não querer nenhum homem em minha vida. Acabei um namoro por medo de amar menos a Deus. Havia aprendido que, estando solteira, poder-se-ia viver uma vida “mais limpa” e mais dedicada para servir ao

Senhor. Tudo isso, não importa quão sublime pareça, está sem o apoio das Escrituras! Nenhum homem ou instituição tem o direito de exigir o celibato, a fim de que alguém seja apto para servir no ministério da igreja. A maior parte dos homens e mulheres piedosas da Bíblia eram casados. Se alguma pessoa decidir permanecer solteira, isso deve resultar de sua livre e espontânea vontade, não pode ser algo imposto por outros. Há poucas exceções, tais como o profeta Jeremias, que era solteiro por um motivo determinado pelo próprio Senhor e não por homens ou instituições, assim como ocorria nas antigas práticas pagãs de celibato, na adoração aos ídolos. Mais tarde, essa prática foi estabelecida pela Igreja Católica. Em Mateus 19.11-12, Jesus afirma que a decisão de permanecer solteiro é tomada livremente por causa de um chamado especial.

Desde a minha conversão, orava ao Senhor, suplicando por um bom marido
crente, que me protegeria e seria um líder espiritual em minha vida cristã. Ano após ano, com muitas dificuldades, eu orava e esperava a resposta do Senhor. A vida de uma mulher solteira não é fácil nem segura, especialmente quando se encontra longe da família e da proteção de uma igreja ou de uma organização missionária. Estava em meus quarenta anos e tinha a responsabilidade de cuidar de onze crianças e um orfanato. Quem, em seu bom senso, casaria com alguém que estava nessas condições? Esta parecia ser uma causa perdida.

Mas, Deus é fiel e gracioso. Novamente Ele demonstrou de maneira inacreditável seu amor paternal, em minha vida. Há seis mil quilômetros de distância estava o homem que Ele havia preparado para mim. Em um belo dia de Janeiro de 1990, recebi uma carta de um americano desconhecido, que tinha ouvido falar sobre mim em sua casa, no Estado de Oregon, por meio de missionários que lhe contaram as viagens feitas à República Dominicana. Este homem, que era viúvo já fazia uns cinco anos, decidiu escrever-me uma carta naquele mesmo dia. Disse que gostaria muito de me conhecer. Tudo começou assim. Logo passamos a nos corresponder regularmente e também tivemos algumas conversas por telefone. Três meses mais tarde, ele me visitou em São Domingos. Ainda recordo as primeiras palavras que lhe dirigi, quando nos encontramos no aeroporto: “Bem-vindo à minha vida!” Ficamos apaixonados um pelo outro, sendo isto uma confirmação do que Deus já havia preparado. Duas semanas mais tarde estávamos noivos. No dia 22 de Junho de 1990, dois meses depois, nos casamos em Corvallis, Oregon. Que alegria e bênção!

Meu esposo é a manifestação externa do amor de Deus em minha vida. Ele é o “guarda-chuva” de Deus, que me protege e orienta; é meu líder espiritual, a expressão do terno e misericordioso amor de Deus. Por meio dessa união, Ele realizou uma mudança tremenda em minha vida, enchendo-a de abundância, alegria, segurança e paz indescritíveis. Por estas razões, desejava incluir nesse testemunho este aspecto pessoal de minha vida.

Somente em obediência à Palavra de Deus, em todo o seu conselho, achamos a Rocha, a estabilidade e a alegria da vida cristã. Não apenas nesta vida, mas também na vida por vir, nós O louvaremos juntamente com os seus anjos e os outros santos, durante toda a eternidade. Ele é fiel às suas promessas (João 3.16; 5.24).

Permita-me concluir citando as palavras do apóstolo Paulo: “Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego; visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé” (Romanos 1.16-17).